28 de março de 2020

ORAÇÃO PELA HUMANIDADE

"AINDA NÃO TENDES FÉ?"

Foto de arquivo - Festa da Santa Cruz (3 de maio) 2017
Numa praça de São Pedro vazia, o Papa Francisco preside a uma cerimónia de fé, de oração pela humanidade, enquanto a chuva inclemente não parava. O silêncio asfixiante, que incomoda, a angústia do vazio, silêncio esse quebrado pelas palavras do Papa que nos exorta a ter fé. Não termos medo, ter fé, ter confiança. De uma forma humilde, perante Deus por um mundo ainda pejado de vaidade, de arrogância, de incompreensão pelos problemas dos outros. Um mundo de oportunistas, em que muitos se queixam, em que se luta pela vida a cada segundo.
Num mundo em que alguns ainda lutam pelo protagonismo, despejados de compreensão, de humildade, cheios de arrogância que se colocam em bicos de pé para aparecerem nas “fotografias”. Sejamos humildes, sejamos humildes, ter fé, acreditar, ter fé. Conscientes que estamos passar por uma provação para a qual não estávamos preparados, para a qual parecia um cenário de filme, daqueles filmes de categoria B, líamos nos livros da história, mas para muitos de nós era exagero daqueles que no momento a viveram e sofreram. Muitos oravam, na altura e pediam a Deus – “Livre-nos Senhor, da peste, da guerra, da fome”. A trilogia negra que sempre marcou psicologicamente o mundo, principalmente a Europa.
Da leitura do Evangelho saiu a mensagem “ainda não tendes fé?”. Sozinho, perante a imensidão do mundo acompanhado por uma imagem de Cristo Cruxificado, importante para a cidade de Roma rogou por todos nós. Das suas palavras, retive a mensagem – “Estamos todos no mesmo barco. É tempo de reajustar a vida. Só o conseguiremos juntos”.
Mensagem forte, em que as palavras perante a imensidão da tragédia que vivemos ficam embargadas na garganta em que as lágrimas rareiam por terem corrido em abundância, em que muitos não puderam despedir-se dos seus familiares e amigos. “Ainda não tendes fé?”.  

27 de março de 2020

CAMPO DE BESTEIROS, HISTORIANDO!


Campo de Besteiros, Historiando! 


Todos os dias, mesmo, todos os dias, trezentos e sessenta cinco dias no ano, ou como este ano, trezentos e sessenta seis dias, penso no meu torrão natal, na “bela adormecida” e na minha serra, o Caramulo. Todos os dias, a memória enche-se imagens de tempos idos, que não voltam em que calcorreava os caminhos, as veredas, em que inspirava o ar puro deste cantinho único que é o vale de Besteiros. Ser de Besteiros fiquem cientes é ser diferente, mesmo, somos diferentes, mas orgulhamo-nos disso, ser diferentes. Aqui não importa ter bebido água na Fonte do Bico, ou na da Póvoa, muito menos na do Calvário, diziam alguns, a melhor, aqui interessa ser devoto de Nossa Senhora do Campo, sim, acreditamos na Nossa Senhora do Campo que nos protege. Para os mais jovens nunca souberam, ou, irão saber, o prazer de mergulhar na Pedra Furada, ou mesmo, na Tabuaça. Os nossos dias eram regidos pelo toque do sino da Igreja Matriz e das sirenes das fábricas, a Velha e a Nova.
Na hora de despegarem do trabalho era um enxame de gente, a pé ou de bicicleta, a avenida Afonso Costa enchia-se como por magia da vozearia dos operários besteirenses.  (continua)

26 de março de 2020

NOSSA SENHORA DO CAMPO, A TI SENHORA ROGAMOS!

NOSSA SENHORA DO CAMPO, A TI SENHORA ROGAMOS!


Corria o ano de 1636, pleno século XVII, o mar estava alterado, era daquelas tempestades que gelavam o coração e nada de bom se esperava. O Padre André Loureiro de Mesquita regressava do Brasil conjuntamente com outras pessoas viu-se numa situação aflitiva em que as ondas a qualquer momento ameaçavam esmagar a nau que os transportava. A fragilidade do ser humano perante a natureza em que diante dos seus olhos aguardava-se pela onda que os iria naufragar. Desse tempo, chega-nos o relato que a nau foi “assolada por uma tormenta tão grande e desfeita”. Perante tamanho perigo, de joelhos, erguendo as mãos à Nossa Senhora do Campo pediram com fé a intercessão dela para os salvar.
Padre André de Loureiro Mesquita acreditava que Nossa Senhora do Campo protegia os seus filhos, mesmo, no alto mar. Conseguida a graça e já em águas calmas, o Padre André fez um peditório junto dos seus companheiros de viagem e chegado a Lisboa comprou “uma fermosa alâmpada de prata, que tem na circunferência estas letras este alampadário de prata mandou fazer o Padre André Loureiro de Mesquita, era de 1636”.
Infelizmente, desse lampadário não existe vestígio, o mesmo deve ter sido roubado pelas tropas francesas, aquando da terceira invasão, já que o santuário sofreu alguns estragos, nessa época.
Padre André Mesquita, natural de santa Eulália acreditou e rogou com fé a Nossa Senhora do Campo, a graça foi-lhe concedida.

25 de março de 2020

A NOSSA HISTÓRIA


CAMPO DE BESTEIROS, BERÇO DA AVICULTURA EM PORTUGAL 
Foto pertencente ao sítio Origens da Terra, a quem agradecemos

Nós, besteirenses, por vezes, lidamos mal com a nossa história. Será por falta de orgulho nos nossos, ou, outras vezes espero eu bem que não o seja, por inveja, não somos capazes defender o que de bom fizemos. Somos e temos de nos orgulhar disso, o berço da avicultura em Portugal. Fomos pioneiros, e não foram só aqueles que tiveram coragem de dar o primeiro passo, mas também porque a Junta de Freguesia arrendou um espaço, onde foi instalado o primeiro aviário. Possibilitou as condições necessárias para que tal acontecesse. Dizia o povo, mas viu-se que sem razão, pelo menos para alguns que “gado de bico nunca fez ninguém rico”. Sabemos que não é bem assim e naquela altura, em 1952, estava dado o primeiro passo para avicultura industrial em Portugal.
Devemos, depois desta tempestade amainar, depois de a normalidade regressar às nossas vidas, temos de pesquisar, inventariar e irmos para frente com um Centro Interpretativo da Avicultura Industrial. Devemos isso aos nossos antepassados, pela nossa memória e pela nossa história. Sei que alguns de nós têm vontade de dar esse passo, sei que alguns de nós o querem. Uma História que tem que ser feita, um projeto que tem que avançar, pode começar por um núcleo de amigos, ou, por uma confraria, seja uma Liga, temos de dar o primeiro passo.
Estarei disponível, conjuntamente com outros para fazer esse trabalho. Estamos nessa?

23 de março de 2020

Nossa Senhora do Campo, a vós, Senhora!


Nossa Senhora do Campo, a vós, Senhora!


Em 1682, o povo de Santa Eulália recorreu a Nossa Senhora do Campo com fé, em prece, hoje, esse ato de ir em grupo não seria aconselhável, mas eles acreditaram que a Nossa Senhora os poderia ajudar. Os campos de onde retiravam o seu sustento estavam a ser dizimados por uma praga de lagartas que tudo devorava, na sua passagem. Dos relatos que nos chegaram, as lagartas devoravam tudo, deixando os campos secos, tristes, improdutivos. Das culturas que embelezavam o vale de Besteiros, um vale fértil que dava sustento para habitantes deste paraíso, na terra estavam em perigo por uma simples lagarta. Compreendemos, hoje, o drama, a impotência dos agricultores ao depararem com as suas culturas destruídas com todo o seu trabalho em vão que se iria refletir no inverno com as arcas vazias.
Decididos perante tal calamidade reuniram-se e foram em procissão com as suas ladainhas, à frente com a sua cruz paroquial e rogaram de joelhos em terra à Senhora do Campo. Conjuntamente com eles foram também os habitantes de Castelões, já que os seus terrenos padeciam do mesmo mal. Gratos, todos os anos, a partir dessa data, foram em agradecimento ao santuário de Nossa Senhora do Campo. Todos os anos até provavelmente 1918 com uma interrupção a partir de 1912. Dessa última vez temos o relato que se refere ao ano de 1918 e o dia 15 de agosto. Guardão, porém, continua, ano após ano, a 10 de agosto, a cumprir o seu voto e a vir em procissão à Nossa Senhora do Campo. Também, Santiago de Besteiros vinha, no dia 5 de agosto com a sua cruz e ladainha agradecer a Nossa senhora do Campo, de uma graça recebida em 1628.
Ter fé, agir, acreditar e isso que faz um povo para resistir às calamidades. Ter fé, ter esperança que o sol irá outra vez sorrir. Ter fé, apesar de afastados, porque é assim tem que ser, é assim que nos protegemos como grupo, é assim que adotamos as medidas profiláticas para nos proteger.   
Ter fé, torna-nos mais fortes em busca de um objetivo comum. Essa fé que os habitantes do vale e da serra tiveram e não interessa aqui se houve ou não houve intervenção divina, interessa sim, como povo, unidos em torno do mesmo ideal. Somos povo, se formos, solidários, unos, tivermos fé, acreditarmos, sim, acreditarmos que tudo vai melhorar, acreditarmos que tudo vai correr bem.

22 de março de 2020

No meu tempo é que era...


Caros amigos besteirenses



Falas das novas tecnologias, de tablets, da facilidade de comunicar, mas como sabes, fico para aqui sozinho, neste lar, raramente vejo alguém que se diz da minha família, raramente vejo alguém, que se diz do meu sangue. Dizem que estas tecnologias vieram aproximar as pessoas, acho que não e temo que não. Cada vez mais sinto-me sozinho, para aqui despejado, neste lar com a Emilínha, a bater em todos, que raio de feitio tem a velha. Ainda bem que já não tem dentes, não seria só à paulada, mas também à dentada. Estas velhas não têm juízo é mais nova de que eu, cinco anos, mas eu estou aqui jovem, para as curvas, não muito pronunciadas, porque enjoo.
Falas do mundo de hoje, o de ontem, seria, afirmas que era bem melhor. Não te convenças disso. Quando a tua Bisavó dizia os meus dois nomes, isso sim, é que era comunicação. Há pernas para que vos quero. O caminho para casa encurtava e um friozinho no estômago, porque sabia que pela certa iria ter baile de chinelo. E quem bem dançava o chinelo, que bem dançava. Dançava o bailinho da Madeira, o enleio, que se enleva de tal forma nas minhas pernas que dançava aos saltinhos. Que dança moderna dançava, de mão atrás, a proteger o que não havia para proteger.
Bons tempos, bons tempos em que uma sardinha se dividia por três, aprendíamos a dividir, a multiplicar pelas bocas de casa, já que o tempo não era de abundância, mas sim, de carestia.
A rua era a nossa casa, o nosso mundo, o mundo da brincadeira, somente alguns momentos, nas tardes de domingo, porque o domingo começava com a devoção. Ir à Missa, à Santa Missa, todo o Santo Domingo. Os homens à frente, as mulheres atrás. Os mais rebeldes para o coro, em que nas escadas para a Torre sineira ousavam fumar, sim, fumar. Que costume, empestavam o ambiente, mas orgulhosos, impantes, enchiam os pulmões de nicotina, mais tarde, coitados, a tosse toma conta deles e a doença. Mas era vê-los, por vezes, mais pequenos que o cigarro, o Kentucky, sem filtro, que segundo diziam, sabia mal que fartava. Autêntico mata-ratos, isso era mais o Definitivo, mas naqueles momentos, aqueles rapazes sentiam-se homens, não de H grande, mas sim de h, pequeno, mas sentiam-se homens.  
Vestia-se a roupa de domingo, a roupa de ir à madrinha, na procura do folar, de folar de Páscoa e nesse dia, sabíamos quem era a madrinha, de quem nos tínhamos esquecido noutras alturas do ano, assim como tu, mas não tínhamos essa coisa das redes sociais. Na verdade, não entendo nada dessa coisa das redes sociais, a tua mãe, já quis que eu visse. Diz ela que assim ficaria a par das novidades, vossas e de outros, mas ficaria eu e meio mundo. Francamente é coisa que não entendo. Lembro-me da Maria, coitada que todos os dias de madrugada, quando vinha ao leite cantava a sua vida a toda a gente que a ouvia, resguardada nas suas casas. Cantava sim, porque para tudo tinha uma canção e assim, relatava a sua vida. Ninguém colocava um gosto, alguns riam-se, outros…outros…enfim, tinham pena, mas ter pena de quem ousava partilhar as suas histórias em que normalmente era a heroína. Hoje teria milhares de gostos!
Preocupa-me é isso dos plásticos. Sim, preocupa-me, sabes, no meu tempo, isso dos plásticos era coisa que não havia. Íamos buscar o pão num saco de pano, sim, num saco de pano, e isso beber água de plástico não prestava, mas de barro, sim que sabor, conservava as qualidades. Por isso, preocupa-me isso dos plásticos, falas também dos edulcorantes, sou sincero, nem sei bem o que é isso. As letras pequeninas, os meus olhos já não alcançam. Queria ler, mas já não consigo, as letras bailam, já não fazem livros com letras grandes. Já não tenho quem me leia, perdeu-se esse costume, de ler em público ao serão, o jornal, algum livro e todos comentavam.
Um abraço apertado cheio de saudades.

-------------------------------Um baú de histórias e memórias--------------------------------