O MUNDO RURAL
Desde sempre o progresso arrasta consigo alterações profundas. Alterações que aceitamos em nome do progresso, mas não são por si melhores, nem por vezes transportam consigo mais qualidade de vida. Nos nossos dias até muitos consideram marca de qualidade, o tradicional, o caseiro, o típico, a riqueza única de ser diferente, ainda não padronizado pelo número em serie dado por um mercado concorrencial.
Não há muito tempo estive numa aldeia beirã, onde ainda os caminhos são atapetados pelos dejectos deixados pelos animais.
Os meus alunos, apesar de serem de uma zona rural, já olham para chão com o nojo, como outras crianças de meios mais “evoluídos” que nada sabem, que nada viram. A passagem de um carro de bois tornou-se um autêntico acontecimento, alvo de múltiplos flashes, gravações como se tratasse de algo extra-terrestre. Surpreendido, mas mesmo assim procurando compreender esta geração de ifones, ipodes, psp e outras que tais se espante com um quadro rústico de uma imagem genuína de Portugal. Sim, daquele Portugal profundo, autêntico, impagável. Por isso, recordo com nostalgia imagens da minha infância, do carro de bois, do milho nas eiras, das desfolhadas e da alegria de encontrar o milho-rei. Aí, aproveitava-se o momento e vai de roda a dar um beijo, apesar na face a todas as raparigas. Claro, a cara corava, as senhoras mais velhas com os seus ditos e provocações ainda tornavam o momento mais complicado, mas apesar da risota, o momento era único.
Mais tarde, no fim da desfolhada, a construção das moreias ou como se chama em Besteiros de meducas, como autênticas tendas dos índios que embelezavam a paisagem. Na nossa ingenuidade pedia-se aos mais velhos que nos deixassem dormir nessas meducas, porque ali o frio não incomodava, nem medo estaria por vizinho. Pensavam-mos nós. Sim, crianças eivadas de ilusão num mundo de fantasia, mas já por si pouco dado ao imaginário.
Hoje procura-se recrear esses momentos, por vezes sem o devido enquadramento e com trajes nada indicados para essas tarefas. Não era assim que se trabalhava, não era assim que se suava, não era assim que se despendia o esforço para se ganhar o dia, neste caso a noite. Por vezes queremos remeter as coisas para os finais do século XIX, quando ainda há cerca de trinta anos ainda se trabalhava assim.
Hoje fala-se no regresso ao mundo rural, porque dizem alguns que a solução também passa por lá. Será que ainda existe mundo rural?
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