17 de novembro de 2011

O QUOTIDIANO DE BESTEIROS!




Ao toque da sirene das fábricas, a rua principal de Campo de Besteiros enchia-se de gente após uma jornada de trabalho. A sirene da fábrica velha, ou a sirene da fábrica nova marcavam o quotidiano besteirense. Acabava-se o dia de trabalho, mas para alguns iniciava-se uma nova etapa com os trabalhos agrícolas, nas alturas do ano em que a luz solar o permitia.
Voltava-se a casa, a rua ganhava vida, cor, movimento proporcionado por aqueles que corporizavam o sonho de um futuro melhor com o seu trabalho. Campo de Besteiros, nessa altura não ficava atrás de qualquer centro industrial com o seu bulício dado pela massa operária. Olhar aquelas inúmeras cabeças cheias de sonhos numa vida melhor, ambições desmedidas perdidas na bruma dos tempos.
A avenida Afonso Costa e não rua como erradamente apelidei algum tempo, mas sou sincero enquanto não vir a avenida arranjada com a dignidade que merece não é uma avenida de corpo inteiro. Os títulos são honoríficos, mas o que conta é a realidade e isso Campo de Besteiros merece a requalificação da Avenida Afonso Costa. Não sei mesmo, agora que se quer mandar o feriado do 5 de Outubro às malvas, como iremos manter estes nomes republicanos nas nossas ruas. Como explicamos a pompa e a circunstância que assistimos na comemoração dos cem anos da República, para passado algum tempo o feriado ir com a troika.
Sabem, no século vinte falava-se no denominado neo-colonialismo, em que países independentes com governos legitimamente eleitos são condicionados politicamente, economicamente por outros países ou organizações. Podemos considerar que eram países de segunda, e os governantes eram simples marionetes nas mãos desses poderosos. Pois sim. Mas não foi essa a razão deste artigo. Mas sim, a tristeza que tive ao estar em Campo de Besteiros e o relógio anunciar as cinco da tarde e não ver hordas de gente a desenregar do seu posto de trabalho com as suas bicicletas, ou de motorizadas, ou mesmo a pé e a dirigirem-se para suas casas. Mesmo muita tristeza, nostalgia, alguma amargura pela perda que não resultou do progresso, mas antes de uma incapacidade de acompanhar os tempos cada vez mais concorrenciais.
Os carros continuam a passar, quase de forma contínua, nos dois sentidos da estrada, hoje regida por sinais ou melhor semáforos, mas nada como antes, nada como outros tempos, nada que traga atrás nós alegria de o fim de um dia de trabalho, nada como o cheiro a serradura, nada como cheiro a farinha, nada como o som das sirenes. Nada, ao mesmo tempo transporta consigo o tempo, a tristeza de dias em que fomos diferentes, mesmo audazes em que marcamos o vale, o verdadeiro vale de Besteiros que mesmo esse, hoje nos querem roubar.

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