A manhã acordava cedo. Fria, na verdade, bastante fria, em casas onde o
aquecimento vinha das lareiras, e de algum tijolo embrulhado em papel que
aquecia a cama, ou então numa garrafa de genebra, vazia com água aquecida ao
lume. Mesmo com o frio que se sentia, acordava cedo. O manto branco estendia-se
pelos campos a perder de vista, o frio fazia bater o dente, convidando a
permanecer em casa, no aconchego da lareira. Mesmo assim com alegria renovada
partia-se na procura do melhor musgo para construir o presépio paroquial. Todos
anos, a mesma ambição, todos os anos, o mesmo sonho de fazer o melhor presépio
de Natal. Reviravam-se os pinhais à procura do musgo. Mais tarde chegados à
Igreja Paroquial iam buscar-se os caixotes, onde se guardavam as figuras do presépio
e tiravam-se os papeis que as tinham protegido, no longo ano.
Outros, tratavam da parte elétrica, que ficava sempre um emaranhado de
fios, quando com carinho, no velho estrado se construía o “melhor” presépio de
Natal. Sim, o melhor, porque era o nosso. O nosso do lindo vale de Besteiros.
A noite, já tinha estendido os seus longos braços pelo vale, quando se
dava pela tarefa terminada. Voltava-se a casa, onde “os nossos” nos aguardavam
para a ceia de Natal, mais tarde, perto da meia-noite, ao som do sino em
“bandos” dirigíamo-nos à Igreja para participar na Missa do Galo. A Igreja
enchia-se de alegria, por vezes aconteciam alguns excessos, outros esqueciam-se
que estavam num lugar sagrado, mas como era diferente aquela noite, que se
prolongava pela madrugada ao redor do madeiro que a iluminava e nos aquecia.
O nosso Natal, de há muitos anos. Hoje, até o presépio está diferente,
mais pequeno, talvez não com o mesmo significado.
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