25 de dezembro de 2011

CANTAR DAS JANEIRAS


Os miúdos reuniam-se á volta da porta, outras vezes ao fundo das escadas, procurava-se fazer silêncio, evitar os cães para que a cantoria pudesse impressionar os donos da casa.
Então, obedecendo a uma voz de comando, em uníssono, os primeiros acordes saiam das bocas dos pequenitos:

“Boas festas, boas festas
Aqui vimos dar
A casa destes senhores
Se as quiserem aceitar”

Depois, as quadras de pé quebrado enalteciam os dotes dos residentes. Por vezes acendiam uma luz, outras vezes abriam a porta, e os mais miúdos curiosos vinham assistir à cantoria. Aí, a vergonha apoderava-se dos cantadores, aproximavam-se mais uns dos outros, mas das suas gargantas afinadas continuavam a sair as notas do desejo de um Feliz Natal. No final, depois de “receber” a paga da cantoria, cantava-se mais uma vez, a agradecer a forma fidalga como fomos recebidos.
Percorria-se a freguesia, a todas as casas se desejava festas felizes. Numas, as portas abriam-se, recebia-se com fidalguia, outras continuavam teimosamente fechadas, as luzes apagavam-se, como a que a dizer que ninguém estava em casa. Que o Natal não tinha passado por ali.
Bons tempos, velhos tempos, mas sobretudo tempos de pureza, alegria, onde o natal era natal, sem o consumismo dos nossos dias, das frases feitas, da demagogia. Altura em que uma mão não sabia o que a outra fazia.

Nenhum comentário:

-------------------------------Um baú de histórias e memórias--------------------------------