I
O Chico petiz que perdeu o país....
Curioso, o petiz espreitou pela fechadura. O seu olhar de espanto não agoirava coisa boa. O Rapaz mariola, pai de muitas tropelias não deixava ninho em descanso è à frente dele muito gato fugia. Mas daquela vez o seu olhar de espanto com algum medo à mistura, nos deixava a todos preocupados, porque dali poderia sair muita coisa, mas coisa boa não era de certeza. Ele olhava e tornava a olhar e cada vez mais a sua cara encolhia.
Sentou-se lívido nas escadas e numa voz sussurrada, dizia para quem o escutava:
- Isto está mau, mas o que vem aí será muito pior daquilo que se esperava.
As pessoas encolheram os ombros, desanimadas, de olhar perdido, porque não imaginavam o que poderia ser pior do que tinham agora todos os dias.
Muitos já não tinham emprego, de manhã enganavam o estômago com uma água choldra a fazer as vezes de café, ao mesmo tempo que seus dentes se entretinham com os restos de pão rijo. Durante o dia logo se via. Era assim todos os dias. As ruas estavam tristes, nem o domingo as animava. Já não se ouvia o som da concertina que nas tardes de verão enchia a praça de foliões que cantavam e ao mesmo tempo os seus males espantavam. Hoje, as casas tinham as cortinas corridas como tampando a miséria da luz do sol. As crianças tristes limitavam-se como aos seus pais, a olhar, não se sabe bem para onde, mas simplesmente a olhar…
Em alguns olhares sentiam-se latentes sinais de revolta, raiva ainda contida, mas sobretudo um olhar vazio, desprovido de esperança…
Por vezes bastava uma simples palavra a apontar um rumo, um caminho. Mas nem isso acontecia. Perder a palavra esperança é perder o sonho, a ambição, é o baixar de braços que corrói.
Naquele rapaz de sorriso fácil, apesar das suas tropelias muitos acreditavam, mas já nem ele sorria, nem era dado nos últimos tempos às brincadeiras. Ele ouvia falar no capital, não na capital que estava longe e distante que ele sabia que já não era Lisboa, mas antes uma Berlim, de que ele tinha ouvido falar nos bancos da escola. Não por bons motivos, antes pela destruição infligida ao mundo por um homem demoníaco de bigode a seguir ao nariz.
Mas era da ditadura do capital, dos homens sem rosto de nenhuma compaixão a que todos os governantes vergavam as suas molas…
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